Neurotecnologia: a linha tênue entre evolução e ética

Entenda os princípios éticas e as possibilidades relacionadas à neurotecnologia

A neurotecnologia é um conjunto de ferramentas criadas com base nos princípios do nosso sistema nervoso. Ela se baseia na concepção de que o cérebro é uma série de redes neurais, ou seja, um conjunto de neurônios interligados. Assim, as neurotecnologias podem ser usadas em qualquer campo e permitem solucionar os vários problemas do nosso cotidiano.

Por exemplo, podem auxiliar no desenvolvimento de exercícios cerebrais — exercícios para o cérebro, criação de neurojogos, incluindo jogos para o desenvolvimento de neurônios. Também podem ser usadas na criação de realidade virtual e de realidade aumentada nas áreas de ensino, desenvolvimento de programas e dispositivos educacionais, criação de dispositivos para o fortalecimento da memória e análise do uso de recursos cerebrais.

Ainda e mais supreendentemente, vem sendo produzidas tecnologias de predição de comportamento com base em dados neuro-biométricos. O impacto da tecnologia em nossas vidas vai ser enorme!

Vamos conhecer mais sobre essa fascinante área?

 O que é neurotecnologia?

O termo “neurotecnologia” pode ser definido de várias maneiras. De um modo geral, essa área pode ser vista como qualquer meio artificial para interagir com o funcionamento do cérebro.

Esse conceito inclui atividades, como o ajuste farmacológico das atividades do cérebro, utilizando drogas que tratam a doença de Parkinson ou demência senil, dependência de álcool e nicotina. Em uma definição mais técnica, veríamos a neurotecnologia como:

  • ferramentas técnicas e computacionais que medem e analisam sinais químicos e elétricos no sistema nervoso, seja no cérebro, seja nos nervos periféricos. Eles podem ser utilizados para identificar as propriedades da atividade nervosa, entender como o cérebro funciona, diagnosticar condições patológicas ou controlar dispositivos externos (neuropróteses ou “interfaces de máquinas cerebrais”);
  • ferramentas técnicas para interagir com o sistema nervoso e mudar sua atividade, por exemplo, para restaurar a capacidade sensorial de um indivíduo, tal como com implantes de cóclea para restaurar a audição ou estimulação cerebral profunda para parar os tremores e tratar outras condições patológicas.

A pesquisa de neurotecnologia nesse contexto inclui todas as pesquisas que contribuem para esses sistemas, incluindo, por exemplo, resolução de problemas de encapsulamento de circuitos eletrônicos, simulações de redes neuronais e redes biológicas culturais para entender suas propriedades e o desenvolvimento de técnicas de implantação cirúrgica.

Não menos importante, interagir com o cérebro requer um alto nível de responsabilidade ética para o paciente, mas também para a sociedade devido à sua influência no nosso conceito de ser humano. Consequentemente, a neurotecnologia inclui o discurso sobre a ética.

Como funciona?

A evolução já começou com a modernização da terapia genética e celular, diagnóstico personalizado precoce, tratamento e prevenção de doenças neurodegenerativas (demência senil, doença de Alzheimer, etc.), além de melhorar as habilidades mentais em pessoas saudáveis. Também, não podemos nos esquecer das próteses dos órgãos, incluindo órgãos sensoriais artificiais e melhoria dos meios de reabilitação.

No entanto, a maioria das soluções no campo da neurotecnologia ainda está em desenvolvimento e apenas algumas empresas podem oferecer uma interface neural pré-fabricada. Já a nossa necessidade, é enorme: uma em cada quatro pessoas em todo o mundo sofre de uma doença relacionada ao cérebro, o que custa trilhões de dólares por ano em custos econômicos indiretos e diretos.

Todos conhecemos alguém afetado. Esse fardo continuará a crescer com o envelhecimento da população. Temos mais pessoas e mais pessoas vivendo mais tempo em um efeito multiplicador. Mas, felizmente, a tecnologia tem avançado exponencialmente com a ajuda de algumas neurotecnologias.

Exemplos de ferramentas técnicas que podem medir e analisar a atividade cerebral são a ressonância magnética funcional (fMRI) e eletroencefalografia (EEG). Ambas as técnicas são usadas para entender como funciona o cérebro, mas são baseadas em mecanismos completamente diferentes. O FMRI mede os níveis de oxigênio regulados pelo fluxo sanguíneo e o EEG mede os feixes de atividade elétrica com eletrodos conectados externamente ao couro cabeludo.

Existem mais técnicas de medição baseadas em outros mecanismos para medir a atividade cerebral, mas, em geral, todas essas técnicas têm limitações em sua precisão. Os neurocientistas em todo o mundo estão sempre procurando melhores métodos de medição. Isso também é verdade para ferramentas técnicas que analisam e interagem com a atividade cerebral. Um exemplo de tal ferramenta é o implante coclear, que ajuda a traduzir o som para a atividade elétrica no nervo auditivo, a fim de restaurar a audição de pacientes surdos. Esta é uma ótima ferramenta para tratar a perda auditiva, mas a percepção sonora nem sempre é ideal. Ainda há muito a ser melhorado.

Qual o potencial da neurotecnologia?

Como você percebeu, a neurotecnologia tem um potencial imenso para incrementar as nossas vidas:

  • tratamento de doenças: as doenças neurodegenerativas atualmente são praticamente todas incuráveis. É possível retardar seu agravamento e dar ao paciente uma melhor condição de vida, mas soluções definitivas ainda não foram descobertas. À medida que avançamos com o conhecimento das redes neurais e podemos intervir nelas com novas tecnologias, novas possibilidades de tratamento surgem e a cura fica mais fácil de ser vislumbrada;
  • tecnologias de realidade virtual: o ápice da realidade virtual ocorrerá quando as redes artificiais puderem interagir com o seu cérebro e criar um mundo paralelo diretamente nele. Com isso, teremos uma RV super-realista, como aquelas que vemos nos filmes de ficção científica. A imersão será completa, sem necessidade de óculos e imagens computadorizadas para simular a realidade. Essa possibilidade, entretanto, ainda está distante;
  • desenvolvimento da inteligência artificial: quando compreendemos melhor como nossas redes neurais funcionam, fica mais fácil criar algoritmos e sistemas que são capazes de imitá-las. Com isso, o desenvolvimento da inteligência artificial fica mais próximo de nós.

Quais são as implicações bioéticas que a neurotecnologia traz para nós?

Certamente, haverá mudanças grandes com o avanço da neurociência. Se pudermos, por exemplo, ampliar nossas fronteiras cognitivas com a integração máquina-cérebro humanos, poderemos escalar nossa inteligência e nossa imaginação centenas de vezes. Isso trará novas formas de pensar, sentir e comunicar. Daí, vem uma grande questão: será que, daqui a mil anos, conseguiremos nos manter humanos como hoje ou seremos híbridos com as máquinas?

Além disso, à medida que os computadores atingem a capacidade de processamento superior ao cérebro humano, há de se pensar se não vamos transferir o nosso “eu” para uma máquina. Será essa, então, a superação das nossas limitações biológicas e o alcance da tão sonhada imortalidade? Será que permaneceremos humanos? Como lidaremos, dessa forma, com questões como o crescimento populacional ou, mesmo, o tédio de uma vida que não tem fim?

As implicações são profundas, visto que é um território totalmente inexplorado. Imagine, como os filmes de ficção científica como “Ghost in the Shell” tentam alertar, que, se nossos cérebros se tornarem digitais, poderá haver quem hackeie nossas mentes? Eles poderão implantar memórias e pensamentos falsos?

Conforme diz o filósofo da tecnologia Peter Diamandis:

Se o futuro se tornar realidade, seres humanos conectados irão mudar tudo. Precisamos discutir as implicações disso com o propósito de tomar as decisões corretas para que estejamos preparados para esse futuro.

Porém, para continuarmos colhendo os benefícios da neurotecnologia, devemos ficar de olho nos limites éticos. Caso contrário, podemos ver os piores cenários dos filmes de cyberpunk, em que robôs e tecnologias são usadas contra nós, se tornarem realidade. Os avanços nessa área devem ser sempre pensados para melhorar a vida humana e não para substituir nossas experiências e nosso trabalho. Imaginar a cura de doenças intratáveis até hoje é maravilhoso, mas um cenário em que a realidade virtual substitui nossas vivências no mundo é péssimo. Por isso, os pesquisadores de neurotecnologia devem planejar bastante como as novas ferramentas podem ser utilizadas.

Tentar ver esse futuro incrível com o desenvolvimento da relação homem e máquina é deslumbrante, não é mesmo?