DAPPs: aplicações nascidas no blockchain são desafio para players tradicionais

Entenda o poder das DAPPs através do blockchain

De modo simplificado, podemos dizer que DAPPs são aplicações que rodam em uma rede P2P (peer-to-peer) ao invés de em um único computador.  Parece familiar? Isso porque é familiar. Se você já usou aplicativos ou serviços como BitTorrent, Popcorn Time, BitMessage ou Tor, você já usou uma DAPP.  Ou pelo menos um conceito anterior, e talvez ultrapassado, de DAPP.

As DAPPs modernas começam a existir a partir da emergência da tecnologia de blockchain. Aposto, nesse momento, que você já sabe ou já ouviu falar sobre blockchain, certo? Se ainda não conhece ou se quiser se aprofundar mais no conceito, dê uma olhada neste artigo ou neste.

Smart Contracts, a chave para entender DAPPs

Sei que o conceito de blockchain não é tão fácil de compreender, e gera muitas dúvidas. Mas precisamos compreender que as DAPPs são aplicações avançadas construídas em cima do blockchain.  E, para prosseguir, precisamos entender o que é um smart contract.

Como você deve saber nesse momento, não existe um único blockchain, e sim vários. Na verdade, o blockchain é mais um conceito do que uma tecnologia em si, pois existem muitas implementações, de empresas e comunidades diferentes. Essas implementações, por sua vez, suportam criptomoedas diferentes.

Um das implementações mais conhecidas, além do blockchain do Bitcoin, é o Etherium. O Etherium suporta a criptomoeda Ether. Mas não só isso. O Etherium foi um dos primeiros a suportar smart contracts também.

Um smart contract é um código de computador, um algoritmo, que estabelece as regras de negócio envolvidas em uma transação no blockchain. Esse código é armazenado dentro do blockchain e executado automaticamente por ele.

Digamos, por exemplo, que uma empresa faz um smart contract  com um fornecedor que produz websites. Esse contrato estabelece quem são as duas partes envolvidas e o valor total da transação. Na lógica do algoritmo está definido que, após 45 dias, metade do valor do contrato será automaticamente transferido do contratante para o fornecedor.

Após 90 dias, caso o website contratado ainda não esteja no ar, o fornecedor começa a pagar uma multa diária de 1% do valor do contrato de volta ao fornecedor. Quando o site entrar no ar, o saldo é finalmente equalizado.

Observe que as regras explicitadas no exemplo acima são similares a de um contrato tradicional, em papel. A diferença aqui é que as regras estão codificadas e sua execução é assegurada pelo blockchain. Não há desvios, exceções. Após 90 dias, se o site não estiver no ar, a multa será cobrada e a transação financeira executada. Esse é o poder do smart contract.

Qualquer tipo de contrato que envolva transações em criptomoedas podem ser representados por um smart contract. Isso abre um mundo de possibilidades para novos negócios automatizados. Veja alguns exemplos de smart contracts em https://www.ethereum.org/token.

OK, e onde entram as DAPPs?

As DAPPs são aplicações constituidas de:

  • Uma camada de apresentação, um website, um aplicativo móvel, algo que permita interação e relacionamento entre seus usuários finais;
  • Uma camada de orquestração de um ou mais smart contracts, armazenados e executados em um blockchain;

Vejamos o exemplo do Experty.

O objetivo do Experty é criar uma solução de comunicação e pagamentos para consultores, especialistas e experts em geral que fazem atendimentos de maneira remota ou online. Pense em advogados, médicos, consultores e professores  que hoje usam softwares como o skype ou portais de marketplace para atender clientes.

Os portais de marketplace, até agora, eram a melhor escolha para alguns desses profissionais, pois o martketplace, além de fornecer a tecnologia de comunicação, se encarrega de gerenciar os pagamentos e as transações financeiras entre as partes (cobrando um fee por isso, é claro). Na área de ensino de línguas, por exemplo, um dos expoentes é o HelloTalk.

O Experty, entretanto, quer fazer diferente. Primeiramente, é claro, ele irá fornecer uma tecnologia de comunicação online, com streaming de vídeo e som. Isso não é inovação e existem muitos projetos open source onde você consegue essa tecnologia de graça. O Experty começa a inovar ao não ter um marketplace. A comunicação entre o especialista e o cliente é iniciada por um link, que o especialista pode divulgar em qualquer lugar: em seu website, blog, rede social ou até mesmo em outros marketplaces.

Mas isso não é o principal. Antes de iniciar a conversa, o cliente deverá concordar com o valor do minuto do profissional (por exemplo, R$ 5,00 o minuto, ou R$ 300,00 a hora). Ao aceitar esse valor, ele estará dando início a um smart contract no Etherium. Esse smart contract irá realizar transações financeiras entre as partes, na ordem de centavos, durante toda a ligação. No momento em que a ligação é finalizada, todo o pagamento já foi realizado. Não há nenhum intermediador, nem taxas de transação. A transação financeira é instantânea, transparente e segura.

Temos muitos outros exemplos, em gestão ou já em produção.

O Ethlance é um marketplace para conectar profissionais freelancers e empresas que precisam contratar profissionais. Pense em alternativas ao Freelancer ou Upwork, porém sem cobrar taxas de intermediação.

O Akasha.World é uma alternativa a redes sociais como Medium, LinkedIn e Facebook, com foco na publicação de conteúdos de qualidade. Porém, ao contrário das redes sociais tradicionais, que passam a ter o controle sobre o seu conteúdo, o akasha.world salva sua produção intelectual no blockchain, podendo até mesmo permitir que você seja remunerado por outros membros da rede que leram e gostaram do seu conteúdo.

O Open Bazaar é um marketplace de venda de produtos, fazendo frente a alternativas tradicionais como Amazon ou eBay. Novamente, esse DAPP permite a comunicação e a transação direta e segura entre o comprador e o vendedor.

A verdadeira economia do compartilhamento

Nos últimos anos, assistimos impressionados a emergência de novas organizações como Uber e AirBnb. Analisadas, estudadas e copiadas, essas empresas são hoje o que entendemos como modelo da chamada nova economia de compartilhamento.

É provável que você já tenha visto algum amigo ou colega compartilhar em rede social aquele banner que diz que “airbnb é a maior empresa de hospedagem do mundo, sem nenhum hotel” e o Uber “a maior empresa de transportes do mundo, sem nenhum veículo”.

Essas organizações, assim como outros grandes marketplaces, como Amazon, eBay, Facebook e Google, de maneira simplificada, fazem 3 coisas de maneira muito bem:

  • Um ponto de encontro atraente que atrai tanto compradores quanto vendedores de produtos / serviços;
  • Uma tecnologia base que permite que a transação entre as partes ocorra;
  • Um sofisticado sistema de segurança que controla o fluxo de dinheiro entre o comprador e o vendedor;

Esse modelo de negócio, em geral, baseia-se na massiva contribuição de seus usuários-membros para gerar valor para as plataformas.  O problema, como destaca recente artigo na Harvard Business Review, é que esse imenso valor produzido é redistribuído de maneira muito desequilibrada entre todos os membros.

A maior parte dos resultados (e dos lucros) ficam com as grandes organizações que operam e controlam o marketplace. Para alguns especialistas, esse desequilíbrio começa a tornar o modelo de negócio, no médio e longo prazos, insustentável.

O blockchain, e especificamente as DAPP’s, estão surgindo como talvez a maior ameaça a hegemonia desses marketplaces. Ao permitir que micro-transações sejam realizadas de maneira segura, transparente e direta entre diversos membros de um mercado, as DAPP’s batem de frente com a principal fonte de receita dos grandes players tradicionais: a taxa de administração ou fee que cobram por cada transação ocorrida dentro de seus mercados.

Podemos considerar, ainda, que a tecnologia base por trás de cada um dos players tradicionais é cada vez mais commoditizada; é relativamente fácil encontrar soluções open source que são cópias fiéis de Facebook, Uber, AirBnb, eBay, etc. Mesmo algoritmos considerados antes inovadores, como o feed Facebook ou o sistema de match-making do Uber, são hoje vistos com ressalvas e limitações.

É por isso que, hoje, algumas fontes acreditam que Uber e Airbnb terão grandes problemas pela frente. Essas duas empresas são duas dos principais alvos das DAPPs em desenvolvimento. Existem algumas dezenas de projetos em andamento visando substituir essas plataformas por sistemas baseados em blockchain.

É impossível negar, entretanto, que os marketplaces atuais são também um sucesso pois são um ponto de encontro seguro para todos os membros. Você usa o Uber pois sabe que terá um carro a disposição; você usa o Facebook pois sabe que seus amigos estão lá; você usa o Airbnb pois sabe que terá um volume maior de opções para avaliar.

Aqui, entretanto, existem dois argumentos a favor das DAPPs que devem ser considerados. Em primeiro lugar, como vimos com o exemplo https://experty.io,  algumas DAPP’s não precisam ser um ponto de encontro para existir. Elas querem existir descentralizadas, dentro de outros marketplaces. Através de um simples link, a transação é realizada. Isso é uma tática de guerrilha digital.

O segundo argumento é que cobrando taxas na ordem de 20%-30% , como players tradicionais cobram hoje, muitos negócios são inviabilizados.

Imagine quantos motoristas do Uber não irão migrar de plataforma ao se depararem com uma alternativa sem taxa de transação?

E como uma DAPP gera receita?

A essa altura você deve estar se perguntando: e como uma DAPP gera receita para poder existir? Como uma DAPP pode se viabilizar como negócio?

Existem duas resposta para essa questão: a resposta romântica e a resposta empírica.

A resposta romântica é a que você vai encontrar na maior parte dos fóruns sobre o assunto hoje. Ela diz que a DAPP não vai gerar receita para si própria, somente para seus membros.  Por estar hospedada e executando dentro do blockchain, a DAPP não tem um “dono”; ela é de todos. A DAPP deve ser obrigatoriamente um projeto open source. Ela é a implementação dos conceitos de organizações descentralizadas e economia do compartilhamento em toda a sua plenitude.

A resposta empírica é que a maior parte das DAPPs hoje são fundadas por organizações privadas, que podem ou não disponibilizar o código fonte de maneira open source. Algumas dizem que vão tornar o código público no futuro. Nos white papers que apresentam o conceito da DAPP, não é incomum encontrar previsões para serviços premium, a serem oferecidos aos membros de maneira opcional.

Nas DAPPs que incluem um portal de marketplace, tampouco é incomum encontrar a previsão de cobrança por “anúncios em destaque”.  Ou seja, é possível, sob esse ponto de vista, que as DAPP irão fortalecer os modelos de negócios baseados em receitas freemium, por assinaturas de uso ou por publicidade.

O tempo dirá.

 

Diretor de Inovação na SML Brasil

Rafael Bortolini é empreendedor e Diretor de Inovação da SML Brasil, uma das principais empresas brasileiras em tecnologias para gerenciamento de conteúdo (ECM) e gerenciamento e automação de processos (BPM). Mestre em Engenharia de Produção, trabalha na implementação de Lean Startup e Design Thinking em grandes organizações e como a cultura das startups pode impactar e modificar organizações já estabelecidas.